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18º Congresso Brasileiro de Sociologia
Resumo: 369-1

Oral Completa


369-1

O romance testemunhal como romance de formação: figurações da violência, da crueldade e da injustiça na obra Memórias de um sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes

Autores:
Enio Passiani1, Gabriele dos Anjos2
1 UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2 FEE - Fundação de Economia e Estatística

Resumo:
A que serve o testemunho e, em particular, o testemunho do sofrimento (expresso ou registrado literariamente em memórias, (auto)biografias ou a partir de outros registros, como depoimentos e mesmo romances), daquele que é alvo da violência, estatal ou não, e da ação das instituições de justiça? Para além do trabalho de elaboração do sofrimento e da violência, pode-se notar que o testemunho pode fazer parte de empresas de dotação de sentido a eventos passados. Assim, o conjunto de registros testemunhais obedece a diferentes incitações à sua produção; noutros termos, nesses tipos de registro não interessa em si a reconstituição virtualmente fidedigna dos eventos, dos participantes (vítimas e perpetradores, testemunhas), dos cenários etc., mas as diferentes formas a partir das quais a violência e o sofrimento são tratados, figurados e significados. A partir desses pressupostos, analisamos o livro "Memórias de um sobrevivente", de Luiz Alberto Mendes, no qual é apresentada a trajetória penal do autor como criminoso. Pretendemos demonstrar que o romance testemunhal, em casos específicos como este, apresenta-se também como espécie de romance de formação: não a formação do indivíduo burguês típico, modelar, consagrado em "Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister", de Goethe, mas a formação do indivíduo subalternizado, produto de uma sociedade capitalista periférica marcada por profundas desigualdades, exclusões e toda sorte de violências.